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FUGINDO DA VERDADE

janeiro 4, 2012

por Geraldo “Mate” Côrtes

Quando eu era bem mais novo, quase adolescente, sem querer me peguei pensando a seguinte coisa muito claramente: “Nós sabemos a verdade. Por alguma razão procuramos maneiras de fugir dela”. Creio que pouco tempo depois, comecei a criar essas tais maneiras, esses obstáculos…

Os anos foram passando e fui investindo minhas energias nas duas coisas que mais amava, mas conciliar estas duas coisas parecia ser uma provação da minha força de vontade.

No âmbito artístico, me via freqüentemente diante da mesma frustração: A de que quanto mais me esforçasse para criar algo genial, mais o resultado era, no mínimo, muito aquém do que eu estava esperando. Ao contemplar o resultado final, a sensação era quase sempre “Era por aí que eu tava pensando… Mas por que to achando tão ruim?” No fundo, eu sabia que algo estava errado.

No âmbito marcial era muito parecido: Quanto mais eu utilizasse de esforço para acertar as técnicas, cumprir as “metas”, tentar entender o Kung Fu, “chegar lá”… Mais longe o “lá” ficava, mais eu me machucava, mais confuso e mais medo de errar eu tinha. Mais eu sentia que Kung Fu era aprender através do sofrimento decorrente de guerrear comigo mesmo, já que eu era o meu pior inimigo… Porém, no fundo, eu sabia que algo estava muito errado.

Com o tempo, na arte, fui percebendo que quanto mais eu me visse como uma fonte primária de criação e não como um condutor, mais longe eu estaria de uma bela obra. Portanto, experimentei não forçar a criação, deixar a intuição vir e guiá-la… E não é que as coisas foram melhorando? Ao me livrar do meu ego, da minha preocupação excessiva, da criação forçada… Consegui achar meu caminho. Mal sabia eu que no Kung Fu aconteceria a mesma coisa.

Eis que ano passado (há quase um ano, por sinal) iniciei minha caminhada no Shen She Chuen. De cara eu já comecei a experimentar uma nova sensação: A de que eu não tinha que guerrear comigo mesmo. Só isso já foi me alinhando, mental e fisicamente. As dores foram cessando, o sofrimento também… Fui iniciando o processo de me livrar dos meus vícios de movimentação e de postura mental. Cada ensinamento novo do Shi Fu mostrava o quanto eu não sabia, o quanto eu estava equivocado, o quanto eu tinha que aprender… O que só fazia crescer o meu gosto pela prática e pelo estudo. A idéia de que a “guerra” seria um conceito constante na prática do Kung Fu foi se desfazendo.

Um belo dia o Shi Fu disse para mim e para meus Shi Ti: “Vocês têm base, têm força, têm boa compreensão… Mas vocês é que atrapalham a execução. Percebam e sintam”. Em seguida, ele se virou pra mim e, sem saber, me botou frente à frente com o meu antigo pensamento juvenil ao dizer: “Você é um artista, logo tem que se expressar. Ao executar o She Zhao Zhu, parece que você tá querendo se esconder atrás de algo, que tá com medo. Expresse-se! Curta!” Já tinha virado costume sair dos treinos tendo epifanias, mas este foi um dos mais fortes. Simplesmente porque deu voz a uma idéia que tinha inocentemente aparecido na minha mente anos atrás.

O valor do Kung Fu na minha vida, pela primeira vez, realmente se mostrou muito maior do que a prática marcial rotineira. Essa constatação tinha deixado de ser apenas um clichê que eu buscava.

A conciliação entre as duas coisas que mais amo passou a ser inevitável. A distinção, quase imperceptível.

Acredito que o Kung Fu ensina o indivíduo a expressar quem ele é dentro daquilo que sabe fazer, seja profissão ou qualquer outra atividade. Não apenas sendo capaz de melhorá-lo em todos os aspectos, mas também de fazê-lo se redescobrir (ou até descobrir).

Pra mim, o Kung Fu é o meu caminho de volta. De volta a quem eu sou, de volta à minha verdade.

-Geraldo Côrtes pratica o Shen She chuen Kung fu sob orientação do Shi fu, no Rio de Janeiro, desde Fevereiro de 2011.

14 Comentários leave one →
  1. Luiz Alexandre Ruiz Link Permanente
    janeiro 4, 2012 3:21 pm

    Geraldo Côrtes obrigado por suas palavras e quero que saiba que foram muito profundas para mim, também agradeço ao Shifu pela publicação destas.

  2. La Jiao Link Permanente
    janeiro 4, 2012 3:24 pm

    Entendo perfeitamente como se sente , Geraldo!

  3. peixoto Link Permanente
    janeiro 4, 2012 3:37 pm

    Oi Geraldo, que legal seu texto, feliz 2012!!!

  4. janeiro 4, 2012 5:05 pm

    Bonito! É cedo que a gente descobre, mas é só mais tarde que aprende de fato…

    Que 2012 seja um ano bem aventurado para você, Geraldo!

    Obrigada!

  5. Dani Suh Link Permanente
    janeiro 4, 2012 5:48 pm

    Olá Geraldo!
    Lembrei de uma frase que dizem ser de Beethoven: “Milhares de pessoas cultivam a música; poucas porém têm a revelação dessa grande arte”. Muito legal ver gente tendo essa revelação na nossa arte (que as vezes esquecemos que é tão arte quanto a do Beethoven). Sempre achei o praticar fácil e divertido… mas quando tento sentir a nossa arte, passeio entre o dificilmente simples e o simplesmente complexo. Muito obrigado por compartilhar o pensamento!
    Abraço,
    Dani Suh

    • janeiro 4, 2012 6:13 pm

      Sendo ou não de Beethoven, adorei! É isso mesmo!

      E realmente, esses dois paradoxos fazem parte da prática constantemente… Provavelmente são o que a torna tão interessante e intrigante, né?

      Grande abraço e obrigado!

  6. Luis Pelegrini 琥 找 山 Link Permanente
    janeiro 4, 2012 8:25 pm

    Muito bom Mate.. Grande abraço.

  7. Samira Saleh Link Permanente
    janeiro 26, 2012 12:56 am

    Ola Geraldo!!!
    Queria compartilhar também com você essa busca, que tenho pra mim que a maior de todas elas. Passo por isso constantemente e fico maravilhada como sempre me reencontro no Kung fu, ensinado, compartilhado e aprendido dentro e fora da academia. Fico maravilhada quando depois de anos estudando ou tentando entender uam técnica, ela aparece de uma manieira natural e tudo vai se encaixando. Parabéns pelo texto.
    Abraços
    Samira Saleh

    • janeiro 26, 2012 4:47 pm

      Pois é, Samira! E também é uma busca que não pára de dar gosto por sempre se renovar. É o famoso “tudo novo de novo”. :)

      Obrigado!

      Um beijo,

      G

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