“DISCORDAR JUSTIFICA A BARBARIE?”
Quando o Shi kung Hu Chao Tien chegou ao Brasil, primeiramente ele residiu por um tempo no Rio de Janeiro, mas não se adaptou. Costumava dizer que o mar trazia a nostalgia da distância da terra. Lembro do trecho de um poema que ele recitava:
而現在
鄉愁是一灣淺淺的海峡
我在這頭
大陸在那頭
A tradução é mais ou menos assim:
“E agora,
A nostalgia é um raso estreito no oceano
Eu estou do lado de cá
O continente está do lado de lá…”
Isso acabou levando-o a residir em São Paulo, onde pouco tempo depois, antes de abrir o seu restaurante, foi proprietário de uma pastelaria, algo muito comum aos chineses imigrantes da época.
O fato que eu quero contar aconteceu neste estabelecimento, e foi uma das vezes que pude presenciar o meu pai absolutamente indignado com uma situação e com os envolvidos nela.
Na época, surgiu um homem alegando-se profeta e o novo Jesus Cristo, o filho de Deus. Ele espalhava o seu nome (o qual não me lembro…) pela cidade através de pixações em paredes de estabelecimentos, viadutos, muros de casas, enfim, onde você andava estava lá: “O profeta “fulano” está de volta!”.
Um dia, não sei afirmar porque, o tal profeta apareceu na região, e sabe se lá porque, instaurou-se um alvoroço, e o homem foi espancado quase até a morte por um numero enorme de pessoas, não sendo ele morto graças a intervenção de policiais. Muitos motoristas de ônibus que costumavam comer seus pasteis, ou tomar os seus cafézinhos na pastelaria, participaram do espancamento.
No final, parte deles retornaram ao estabelecimento do meu pai, e foram atendidos diferente do que de costume, com o velho de cara fechada e em silêncio, apenas servindo o que pediram. Num dado momento, alguém começa a narrar a sua parte no acontecido enquanto pede um pastel, e o dialogo começou:
- Melhor comer bem. Podem aparecer outros homens para você espancar, e você tem que estar alimentado… Disse-lhe o Shi kung.
- Você viu que louco safado, Henricão?.. (Era como o meu pai era conhecido pelos motoristas) Cobrimos ele de porrada!
- Não. Eu vi um monte de homens enlouquecidos, espancando um outro homem…
- Mas ele mereceu, estava de palhaçada! (Disse outro)
- É que ele veio de longe, com essas coisa de “Buda”… Ele não entende! (Justificando a atitude do meu pai)
- Nunca vou entender… E não se trata religiões diferentes, e sim de diferenças!
- Para nós que somos católicos, um cara aparece falando que é filho de Deus? Pensa…
- Pelo pouco que eu sei da sua religião, isso já aconteceu antes, e vocês fizeram a mesma coisa.
- Mas, é diferente!..
- Foi o que pensaram na época.
- Você está me dizendo que concorda com o que o cara estava dizendo que era?
- Não, e isso importa?
-Claro, pois então, você não concorda também!
-Discordar, justifica o sangue?
-Não entendi…
- Eu sei.
Esse caso me veio muito forte á cabeça nos últimos dias… Muitas pessoas tiveram que abandonar os seus países, parentes e entes queridos por temerem pelas próprias vidas ao discordarem. Claro que eu sei que ele não acreditava que o tal profeta falava a verdade, e sei muito mais que, para ele isso não era o mais importante naquele acontecimento…
A pergunta deste dialogo se faz caber:
“Discordar justifica a barbárie?”

Tão profundo que ficou simples Shifu… ou vice versa! A leitura me levou de volta às primeiras discussões da faculdade de Direito… As boas discussões, quando os quase-juristas ainda não foram contaminados com a “prática” e o Direito ainda se confunde com o que é, de fato, direito:
“Posso não concordar com uma só palavra que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. Voltaire
Abs e obrigado
Por favor, não publique isso. Mas não encontrei nenhum email para contato ou algo do tipo, eu queria entrar em contato com alguém, gostaria de saber se há alguma academia desse estilo por aqui. Moro em Osasco/SP.
Meu email é hector.vido@gmail.com
Obrigado.
Talvez a crenças deles não era forte o bastante para não se sentirem atingidos pela imagem de um candidato a profeta…
Bom, um grande texto, e ainda mais, um exemplo simples e concreto de sabedoria!
Obrigado por compartilhar!
Denis/SP
Lendo esse pequeno de uma situação da vida do Shi kung estou deixando um comentário pela primeira vez, motivado pela indignação a intolerância. Tem passado vários casos como os da Av.Paulista, um em relação ao motorista de ônibus que foi espancado etc. Isso me faz pensar na falta de princípios, na banalização da violência, na falta da espiritualidade (não me refiro a religiosidade) das pessoas que os levam a tamanha atrocidade!
Anderson/SP
Tive o prazer e a honra de ter um pequeno contato com o Shifu quando treinava Tai Chi e Pa Kua.