“MAIOR QUE O UNIVERSO, É O VAZIO QUE O CONTÉM…”-Hu Chao Tien
Em Hong Kong, num pequeno apartamento/estudio de três cômodos na Hau Wong Road, em Kao Long, reside o senhor Pang Pang, um artista plástico de aproximadamente sessenta anos de idade. Eu estava filmando na mesma rua quando fui convidado a conhecê-lo, porém, foi uma visita curta em razão do horário e do trabalho que me esperava, mas não por isso, deixou de ser muito marcante para mim.
Eu tomava uma xícara de chá, com o meu olhar fixo na parede da sala, não numa tela, mas na própria parede, onde uma pintura, num tema figurativo, de cores e os traços fortes, me prenderam a atenção de tal maneira que eu mal conseguia prosseguir a conversa com o artista e com o colega que nos apresentou. Dentro do meu limitado conhecimento sobre o assunto, fiquei um bom tempo tentando decifrar o significado daquela pintura.
Na minha segunda visita, eu estava cheio de argumentos e possibilidades, mas quando ele retornou com as xícaras de chá, deparou comigo atônito, agora contemplando uma parede pintada de branco. Tentei, pela falta de intimidade, não dizer nada sobre a pintura, mas a medida em que o tempo foi passando, resolvi abordar o assunto, e a conversa se desenrolou mais ou menos assim:
Eu – A pintura na parede, o senhor pintou por cima?
Sr. Pang – Não, raspei e depois pintei de branco. Do contrario, quando eu for pintar novamente, as nuances interferem no resultado das cores.
Jeff – Já vi pinturas incríveis nessa parede. Quando o senhor começa a nova?
Sr. Pang – Talvez, hoje a noite.
Eu – Aquela pintura, para o senhor, ela tinha um significado definido?
Sr. Pang – Um momento.
Eu – Ela era linda!
Sr. Pang – O momento, também.
Ele serviu o chá para nós, a conversa rumou para outros temas, mas ainda intrigado, logo que percebi uma brecha, retornei ao assunto “parede”.
Eu – O Senhor já tem idéia do tema que vai pintar dessa vez?
Sr. Pang – Outro momento.
Eu – E novamente vai?..
Jeff - O Maximo que eu vi uma pintura ficar nessa parede foi um mês, não?
Sr. Pang – As vezes mais, outras menos… Eu não determino um prazo.
Eu – O senhor não sente remorso quando está apagando a sua pintura?..
Sr. Pang – Quando eu cheguei aqui, a quinze anos atrás, eu pintei fachadas de cinemas, cartazes de promoção em lojas, e até portas de comércios para a minha sobrevivência. Hoje, vivo da minha arte, desenvolvendo projetos visuais para produtoras, temas para exposições, e vendendo alguns quadros.
Eu – Ah, o senhor vende os seus quadros?
Jeff – O senhor Pang tem uma grande quantidade de admiradores em Hong Kong. O Stanley Ho tem um painel no cassino em Macau.
Eu – Me desculpe a intromissão, mas esses momentos que o senhor retrata não são importantes?
Sr. Pang – Cada um deles.
Eu – Então, porque o senhor não os pinta em tela ao invés de parede, e vende-os? Não seria uma forma de eternizar esses momentos?
Sr. Pang – Se eu os pinto é porque já são eternos em algum lugar dentro de mim. Também, não o faço pelo remorso que sentiria por vender parte da minha vida em pedaços. Os quadros que eu vendo são do mundo, os que eu pinto nessa parede são meus.
Tirei a foto que encabeça esse post, de uma outra no escritório da Green light productions em Hong Kong. Jeff me disse que ela é de autoria do Sr.Pang.


Essa pintura é sensacional, vigorosa. Pang Pang tem todo o direito sobre seus momentos, mas sua arte, ah… merece ser preservada como toda boa arte, como a arte de Ai Weiwei!…
Obrigada por compartilhar, shi fu!…
M. Eugênia
Vou ter que usar a mesma palavra que a Maria Eugênia: Sensacional!!!
A história, a pintura, a idéia do Sr. Pang Pang… Inspirador.
Conseguir ter esse desapego com a própria arte é admirável. É uma arte dentro da arte.
Agora só uma perguntinha, Shi Fu: Estaria intencionalmente implícita nesse texto, para nós discípulos, a relação com Shou, Po e Li (ênfase no último)?
Grande abraço Shi Fu!!
Salve Mate.
“Explicitamente”, shou, po e li, sem “ênfase”.
Abraço
“…..Eu – A pintura na parede, o senhor pintou por cima?
Sr. Pang – Não, raspei e depois pintei de branco. Do contrario, quando eu for pintar novamente, as nuances interferem no resultado das cores…….”
Confesso de Mim para mim mesmo, que me falta a coragem para ” raspar”! Se bem que mesmo tendo raspado ocorre o usufruto da experiência ( momento) anterior!
Isso já e percebido a olhos vistos. Agora é chegado o momento de ouvir a música é reagir a sua provocação. A base já existe.
O seu desenvolvimento é percebido, e base você tem. É hora de ouvir a musica e perceber quando ela é suave e quando ela é mais pesada. A técnica, como a música não deve ser monocórdica… A momento a se perceber!
Abraço
Realmente é de tirar o folego de qualquer um, comparando com o kung fu que o SXIFU nos ensina, a história do SR. PANG é muito parecida com o nosso Kung Fu(Estilo). A palavra Kung Fu é do mundo todo. Mas o Estilo que nos está sendo ensinado, não é para o mundo todo, e claro obviamente pertence somente ao criador.Amei ter liido esta história real, e ai comparando com o nosso kung fu, quis me expressar neste pequeno espaço e aproveitar e agradecer mais uma vez porque existe alguém mto especial no mundo que está dividindo conosco algo de um valor que em nenhuma parte do mundo haveria preço.Muito obrigado por dividir essa herança conosco.
Lúcia
Olá querida.
Melhor que a transmissão só perceber a arte sendo assimilada.
E continue caminhando.
Abraço
Dani Hu, boa tarde.
Você pode me indicar uma academina em São Paulo que treine o Estilo Shen She Chuen?
Agradeço antecipadamente
Entre em contato com aaasader@uol.com.br
Sinto que a filosofia de vida e obra dele é como me sinto em relação ao Kung Fu. Existe um Kung Fu praticado no Tan com as informações recebidas do Shifu e dos meus professores e aquele que pratico sozinha, quando estou buscando o aprimorameto das técnicas ensinadas.
Essa história me comoveu…
Xie Xie Ni Shifu
Olá querida.
A mim também. A pratica solitária é tão importante quanto a em grupo. E a hora do dialogo da sua arte consigo mesmo.
Abraço
Shifu,
Se me pemite, estava justamente discutindo sobre um assunto correlato com os colegas da academia. Me parece que algumas vezes a “pintura” feita na sua parede, para você mesmo, sem a intenção de exibir ou mesmo sem a intenção de melhorar a técnica, apenas como uma manifestação daquilo que já está dentro de você, acaba saindo despretensiosa e por isso mais pura, mais verdadeira… a ponto de se tornar uma obra até mais interessante aos olhos de um terceiro à quem a exibição não era destinada. Está aí o “Coração de Buda” de que se houve falar? Difícil é conseguir manter essa mesma pureza e atingir o mesmo resultado em todos os treinos… simplesmente “deixar sair” a técnica que já está lá, como costuma nos dizer o professor Braulio.
Obrigado pelos treinos e pelas discussões.
Salve Suh.
Com relação a explanação, nada mais a comentar se não: EXCELENTE! No mais, quanto ao treino, vou usar um exemplo que meu pai empregava para definir algumas situações como essa “dificuldade”… Dizia o Shi kung Hu Chao Tien: Praticar é como viajar de trem. Não se preocupe com a estação a chegar, usufrua da paisagem!..
Grande abraço,
Parabens
Hen gan xie Shifu, pelo carinho e por nos conduzir na viagem…
Gande abraço